domingo, 3 de junho de 2012

O perfeito mundo de pedra e metal


Naquele mundo tudo era feito de pedra e metal. As pessoas viviam enclausuradas dentro de suas armaduras e jamais se mostravam umas às outras. Eram armaduras que escondiam tudo, até os olhos das pessoas ficavam protegidos por viseiras. Estavam, todas, tão habituadas a viverem daquela maneira que se tornaram distantes e completas estranhas umas às outras. Ninguém trocava um gesto de carinho com ninguém, os olhares jamais se cruzavam e mesmo as palavras eram raras e escassas naquele mundo.
            Era um mundo áspero, hostil à vida e a qualquer gesto da menor que fosse a delicadeza. “Nada frágil é capaz de sobreviver nesse mundo”, disse, certa vez, um governante, e todos tomaram aquelas palavras como lei. “Toda e qualquer fraqueza será combatida e expurgada”, também dissera. E assim foi feito, e o mundo foi se moldando segundo aquelas palavras e as pessoas se acostumaram àquele modo de vida.
            Naquele mundo o sol mal esquentava e as chuvas eram rigorosamente programadas, os ventos eram controlados e a primavera fora banida. No céu havia eternas nuvens cinza que mal permitiam a passagem da luz do sol durante o dia, e não deixavam com que se entrevisse, à noite, a lua e as estrelas. As cores foram proibidas e no céu há tempos não ousava surgir um arco-íris.
            As pessoas, tão mecanizadas estavam, tão enraizadas dentro de suas armaduras, julgavam viver num mundo perfeito. Até certas palavras, naquele mundo, foram esquecidas, e os sentimentos, os poucos que ainda restavam àquelas pessoas, eram reprimidos. Felicidade era uma palavra que fora abolida, na verdade esquecida, pois não se havia qualquer noção do estado de espírito, do sentimento que ela exprimia.
            Assim, todos viviam naquele mundo tão perfeito, cada qual sem qualquer tipo de preocupação além de seguir as suas rotinas.
            Dentro das grandes cidades, entre aqueles gigantescos prédios, nas longas avenidas, as pessoas corriam de um lado para o outro, muitas vezes se esbarrando umas nas outras, sem ao menos prestarem atenção que, ao seu redor, não havia nada que denotasse a existência de qualquer tipo de vida. Não havia árvores, não havia animais de qualquer tipo. As relações humanas eram mecanizadas.
            Tudo naquele mundo era lógico, programado e perfeito. Nada saia fora do programado, dos horários, da rotina, até que um dia um homem, mesmo naquele mundo hermético, higienizado, adoeceu. Talvez tenha sido só um mal-estar, uma indisposição, mas como ele não estava acostumado a lidar com uma situação daquelas, por uma debilidade e certa lentidão provocada pela “doença” (palavra esta que também tinha sido abolida naquele mundo), fez tudo de forma mais lenta do que o normal. No trabalho, tinha sido o último a chegar, coisa que ninguém percebera, e o último a sair. Nas avenidas e vias públicas, por onde todos andavam tão apressados, ele caminhava devagar, como que contando os passos, equilibrando-se para que sua fraqueza e indisposição não o levassem ao chão. Num espaço vazio, numa ruela estreita, entre dois prédios, ele se recolheu enquanto recobrava um pouco de suas forças. Estranhou ver aquele espaço ali, como que esquecido, incongruente naquele mundo onde tudo era tão perfeito, calculado e no seu devido lugar, tão perfeitamente encaixado. Sentou-se no chão, recolhendo-se nas sombras dos dois prédios, e observou a rua iluminada à sua frente, as pessoas em suas armaduras indo e vindo, sempre tão apressadas, e só ele, ali, sozinho, a observá-las. Era como se só ele, em todo o mundo, estivesse a observar o mundo ao seu redor. Quando se sentiu um pouco melhor, apoiou sua mão no chão, para tentar se levantar, e foi só então que se deu conta de que bem ao seu lado havia algo que ele desconhecia, algo tão minúsculo e frágil que ele quase esmagara com sua mão sem se dar conta. Abaixou-se por inteiro, de forma que quase se deixa no chão, para que seus olhos ficassem da altura do minúsculo ser. Não sabia o nome daquilo, e mesmo a temendo, pois a desconhecendo, não sabia o mal que aquilo poderia lhe causar, a pegou, meio sem jeito, mas com toda a delicadeza de que era possível, a retirou do solo e a depositou num compartimento de sua armadura e a levou para sua casa.
            Só ao chegar a sua casa foi que ele se deu conta de que não sabia o que fazer nem onde colocar aquilo que trazia tão protegido dentro de sua armadura, e a manteve segura na mão por um longo tempo, a contemplar tamanha delicadeza e beleza. Tinha uma cor clara e bela, diferente do cinza metalizado por que estava cercado. Não lembrava o nome daquele ser, não se lembrava do nome que se dava àquela cor, mas aquilo o fez sentir algo diferente, como um palpitar dentro de seu peito. Pensou que seu peito fosse explodir e largou o diminuto ser no chão. Quando o bater em seu pito se normalizou, assim como sua respiração, voltou a pegar aquilo que tanto o maravilhava e intrigava. Desejou tocá-la e sentir seu toque na mão, mas aquela armadura o impedia de ter qualquer sensação do mundo externo. Foi então que resolveu cometer uma insensatez: retirou a luva de sua armadura para poder tocar, com a ponta do seu dedo, o delicado corpo alongado e delicado, uma haste que terminava numa profusão de pequenos braços que se abriam para o mundo, como se o pequeno ser se desnudasse para poder ser contemplado. Mas só tocar não foi suficiente, ele queria sentir mais daquele ser, e mesmo com todo o medo que sentia, retirou seu capacete e ao fazê-lo, suas narinas foram invadidas por um aroma doce e delicado que era desprendido do ser. Jamais havia sentido nada parecido, jamais tinha tocado (e sido tocado) por algo tão delicado; jamais tinha sentido um aroma tão inebriante. Olhou-a de mais perto (sabia, sentia, de alguma maneira, que o ser era feminino).
            Sentiu uma necessidade de compartilhar aquela descoberta com outras pessoas, de apresenta-la ao mundo. Mas antes de apresenta-la era preciso nomeá-la. Ficou horas a ruminar sobre que nome daria aquele diminuto ser. Foi acometido como que por uma lembrança, e a chamou de Flor.
            Havia redescoberto, naquele perfeito mundo de pedra e metal, um ser frágil que havia brotado entre dois prédios, algo tão delicado que havia abalado as estruturas de seu mundo e que, quando fosse reapresentado às pessoas agiria da mesma forma com cada um que a visse, contemplasse, tocasse e sentisse o seu doce aroma.
            Ele não sabia, ainda, mas aquela flor era a primeira que brotava de uma primavera que há tempos não surgia naquele mundo; de uma primavera vigorosa que iria florescer e dar vida, cores e aromas não só ao mundo em si, mas principalmente a todas aquelas pessoas que viviam (ou imaginavam viver) encarceradas dentro daquelas intransponíveis armaduras de metal.

Como uma árvore


Eu queria ser uma árvore e ter raízes fundas, enterradas na terra. Os pássaros iriam criar seus ninhos e meus braços e seriam como meus pensamentos e sonhos. Eu iria cultivá-los e, quando estivessem suficientemente maduros, prontos, abririam suas asas e voariam para bem longe, para voltarem aos meus braços quando estiverem realizados, para criarem seus novos ninhos. O vento iria levar minhas palavras mudas, mas, mesmo assim, palavras, que chegariam aos quatro cantos do mundo. Seria admirado pelo meu tamanho, visto de baixo para cima, tão grande, pelos seres que andam com os pés plantados no chão, e visto de cima para baixo, tão pequeno, pelos pássaros no céu.
            Eu queria ser uma árvore, ser sólido, não como uma rocha, sem vida, mas com uma vida pulsante em todo o meu corpo, desde a raiz até a última folha em minha copa. Sentir e ser vida, como poucos os seres viventes na terra o são, e ver, lá do alto, todo o mundo se descortinando a meus pés, podendo tocar as nuvens com as pontas de meus dedos.
            Eu queria ser uma árvore para ser um berço de vida, um berço de amores, quando os casais apaixonados viessem até mim e deixassem, marcado em minha pele, seus nomes, como votos de um amor eterno, que eu carregaria, como testemunha, até quando eles não mais se lembrassem de tais votos. Ser eterno como os votos desse amor, mesmo quando não existisse mais amor, mesmo quando as pessoas desse amor não mais existissem.
            Eu queria ser uma árvore, para ser único, para ser tão especial para tão poucos e para tantos; para ser sombra, mas também para ser fonte de calor, para ser fonte de vida, para me vergar ao vento e a nada me subjugar; para ser o primeiro a sentir as primeiras gotas d’água da chuva que cai do céu e sentir seu toque frio e quente, escorrendo por todo o meu corpo, até caírem, finalmente, no chão, indo se enterrar fundo, na terra, próximas às minhas raízes.
            Eu queria ser uma árvore para que todos viessem, em dias de chuva, se abrigar por entre meus galhos, protegendo-se; para que, em dias de sol, viessem se proteger sob meus braços, na minha sombra. Ser como um abrigo, como um amigo, um alguém em quem se confia, um alguém a quem se ama.
            Eu queria ser uma árvore para ouvir todas as vozes. Ser o primeiro ouvir o canto dos pássaros a saudar um novo dia, ser aquele a quem se confia os segredos mais íntimos, os sonhos mais secretos e os maiores devaneios, e ser a silenciosa palavra de consolo.
            Eu queria ser uma árvore, para ser forte em aparência, mas para ser frágil em minha essência. Ser fúria ao enfrentar bravamente as tempestades, mas ser paz em cada final de dia, quando o sol se põe no horizonte e é em mim que ficam seus últimos raios, em quem fica gravado o último brilho de seu olhar antes de se deitar lá longe, em quem fica seu último calor antes de deixar-nos a sós com a escuridão da noite.
            Eu queria ser uma árvore e ser eterno. Eterno como o amor declarado pelo casal apaixonado, eterno como é o ciclo do dia, como despertar do sol todas as manhãs e o canto dos pássaros a saudá-lo e eterno como o viver, como são as marcas que deixamos na vida daqueles que encontramos, como sementes a cultivar que plantamos, que um dia lançarão raízes fundas e crescerão como frondosas árvores.

domingo, 27 de maio de 2012

Ruínas

Um homem, parado, não consegue acreditar no que tem diante de si, no que seus olhos veem: a casa que fora seu lar completamente em ruínas. Longos foram os anos que passara longe, mas em nenhum momento deixou de ter clara a imagem de sua casa, para onde sabia que podia retornar. Em seus devaneios se via novamente a criança que fora um dia, correndo pelos corredores, fugindo e brincando com o seu cão, subindo naquela árvore onde seu pai, certa vez, havia subido e amarrado uma corda num grosso galho e na outra ponta da corda prendido a um velho pneu, construindo, assim, um balanço, onde ele, menino, passara longas e infindáveis horas de seu dia. Lembrava-se dos banhos de chuva que tomara nas noites de inverno. Lembrava-se até dos medos dos tempos de menino, das noites escuras em que dormia sozinho no seu quarto, mas que sempre acordava de madrugada e ia pedir abrigo na cama dos pais, alegando que não conseguia dormir em sua própria cama. Lembrou da adolescência, da primeira namorada, do seu nome e do dela dentro de um coração, que gravara com a ajuda de uma faca no tronco da árvore, e que depois apagara com a mesma faca quando percebeu que tudo não passara de uma ilusão de amor juvenil. Sofrera longas horas e passara longas noites em claro, querendo chorar sem conseguir após aquela decepção, a primeira decepção amorosa. Depois se reerguera, como todos se reerguem da primeira queda, e seu coração cicatrizara, da mesma forma que aquela árvore. Mas por mais que afirmasse, nunca mais fora o mesmo após aquela decepção, nunca mais conseguira amar de forma tão irrestrita e nunca mais se dera da mesma maneira, tão por inteiro.
Lembrava, agora parado, ali, onde era bombardeado por tantas lembranças, do dia em que fora embora, de seu pai parado à porta, lhe dando adeus, de sua mãe chorando, pedindo para ele não ir, pois não resistiria viver seu ele, seu filho único, tão amado. Havia se alistado no exército, desejava ir para a guerra, pois acreditava nas belas ideias de glória que a guerra traria. Mas o que vira fora bem diferente do tudo que havia imaginado. Ideias de glória, honra e luta foram sufocadas por gritos de dor, lamentos, de balas passando perto de sua cabeça e, principalmente, das imagens de mortes, tanto dos seus companheiros, que vira tombar à sua frente atingidos por uma bala, sem que nada pudesse fazer, quanto de seus inimigos, que matara sem piedade, olhando em seus olhos. Revia, revivia a guerra em seus pensamentos e um arrepio lhe percorria todo o corpo, como uma descarga elétrica. O medo e o horror de tudo aquilo havia lhe feito fraquejar, havia lhe feito chorar muitas e longas noites. Todos os dias, quando se retirava do campo de batalha e ia ao acampamento, antes de dormir, pensava em desistir e voltar para casa, para seu lar, onde sabia que seria feliz, onde se sentiria seguro, na cama de seus pais, dormindo entre os dois. Mas todos os dias deixava para o seguinte, e continuava lutando, apesar do medo e do horror que a guerra lhe infligia diariamente.
Foi-se deixando levar, deixando que a guerra entrasse dentro dele, até que não mais sentia medo, até que não mais sentia mais nada com os amigos que morriam e com os inimigos que matava: eram, para ele, todos iguais, vitimas de uma guerra. Lutou bravamente sem nunca ser ferido externamente, mas por dentro a guerra havia deixado muitas e profundas cicatrizes em sua alma, que ele escondia de si mesmo. Foi destacado para outras guerras, recebeu inúmeras honrarias e alcançou altos graus na hierarquia de comando, as quais recebia sem qualquer emoção no rosto, como se tudo aquilo fosse parte de um processo natural.
Talvez a única coisa, em todos aqueles longos anos de ausência, após aquelas tantas e infindáveis batalhas e guerras, foi a sua lembrança, as imagens da sua casa, na qual ele lembrava todas as noites, antes de dormir. E agora tinha diante de si não a lembrança, mas a realidade que se descortinava diante de seus olhos, de sua casa em ruínas.
Deu dois passos, lentos, pesados, e abriu o portão, que caiu no chão quando ele o tocou. Viu não a árvore de sua infância onde seu pai armara uma balanço, não a árvore onde gravara seu nome e o de sua primeira amada, mas uma outra árvore, que jazia no chão, seca, completamente sem vida. As ervas daninhas haviam tomado conta de tudo. Não havia mais gramado nem o pequeno jardim que sua mãe cuidava com tanto zelo, não havia mais a calçada que ia do portão de entrada até o primeiro batente da entrada de sua casa. As paredes da casa, as que ainda teimavam em permanecer de pé, estavam enegrecidas pelo tempo e não havia mais qualquer vestígio de cor nelas. As janelas haviam sido arrancadas pelo tempo, assim como as portas, cujas sobras que não haviam sido devoradas por cupins serviam de abrigo para inúmeros insetos. O ar dentro do que restava da casa estava morto, pesado, irrespirável. A poeira cobria tudo e as teias de aranhas estavam em todos os cantos. Não havia mais telhado, que havia desabado há anos, o que restava era apenas uns pedaços de madeira, no teto, seguros precariamente entre duas paredes que ameaçavam desabar a qualquer momento.
O homem via tudo isso com imensa tristeza. O seu lar, a sua casa, estava completamente em ruínas, assim como ele, que lutara tão bravamente em inúmeras guerras que não eram dele para poder voltar para a sua paz.
Caminhou pelos lugares que tinham sido corredores bem iluminados com os olhos fechados, sendo levado apenas por suas lembranças, pois se abrisse os olhos iria se deparar com o pesadelo que tinha diante de si. Foi até o quarto de seus pais, onde o resto de uma porta ainda continuava seguro à uma precária parede. Tocou na porta com a ponta de seus dedos e sentiu, por uma breve fração de segundo, tudo voltar a ser como antes; mas essa sensação durou muito pouco. Dentro do quarto dos pais não conseguiu distinguir nada além de um guarda-roupa caído e de uma cama virada. Deixou que seus passos o levassem até o que um dia tinha sido o seu quarto. Lá a porta continuava, milagrosamente, intacta, e ele chegou a pensar que ali tudo permanecera como sempre fora (triste e amarga ilusão!). Ao tocar na porta, ela desabou, levantando uma espessa nuvem de poeira que o impediu de abrir os olhos e ver o que tinha diante de si por longos minutos. Quando pôde, por fim, ver, desejou estar novamente no meio de um campo de batalha, ouvindo tiros vindos de todos os cantos; desejou ver homens tombando à sua frente e às suas costas; desejou ver sangue jorrando de feridas abertas; desejou ouvir gemidos de dor, pedidos de socorro; desejou ver e ouvir tudo o que a guerra tinha para oferecer, menos ver o ouvir o que tinha diante de si: o nada, a total destruição de todas as lembranças que permaneceram, até aquele momento, vívidas em sua memória. A visão que tinha diante de si causou mais estragos em sua alma do que todas as guerras em que havia lutado.
Seus pés pesavam e estava difícil respirar naquela atmosfera de tanta destruição de um passado que ele julgava intacto, mas ele deu um passo em direção ao que tinha sido sua cama. Sentou-se na beirada, mesmo ouvindo os gemidos da madeira podre que ameaçava se quebrar com o seu peso e buscou na sua mochila uma das poucas coisas que havia trazido como mórbida lembrança da guerra: a sua arma.
Pouco depois se ouviu o eco de um estampido alto, de um tiro, ao qual ninguém prestou atenção.
Ali, no coração daquelas ruínas, se matou o homem que sobrevivera à inúmeras guerras, mas que não sobrevivera ao ver a sua infância e vida sepultadas, que jazia em si mesmo, como uma ruína dentro de uma ruína.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Águia e o Castor


Uma Águia planava soberana, reinando livre no céu, quando, com seus olhos claros, viu, lá longe, no chão, um Castor entretido em seus trabalhos na construção de sua barragem. Seu primeiro impulso, de caçadora, foi de fechar suas asas e mergulhar para pegar com suas garras aquela presa, que estava tão entretida, fechada em seu próprio mundo. Mas não agiu por impulso. Do alto, ela ficou a observá-lo, tão pequeno, tão solitário, tão frágil. Seria tão fácil, para ela, agarrá-lo, mas não o fez. Desceu lentamente, abrindo e fechando suas asas, sendo conduzida ao sabor do vento até se empoleirar numa árvore ao lado do riacho onde o Castor trabalhava. Ele não tinha percebido, de tão atarefado que estava, a presença de tão bela ave, até que, ao ir buscar um galho na árvore, a percebeu. A princípio, ficou assustado. Aquela beleza selvagem e imponente o deixou completamente sem ação. Ele a temeu, mas não havia nada capaz de fazer com que, mesmo em seu temor, se afastasse dela. Seus olhos estavam fixos nos dela e seus corações batiam no mesmo compasso.
            A Águia não mais abriu suas asas para reinar livre e soberana no céu. Passou a viver no chão, empoleirada nas árvores, para estar sempre perto do Castor, que dia após dia construía, de galho em galho, de graveto em graveto, não uma represa naquele riacho, mas um verdadeiro palácio onde ele e sua amada pudessem habitar para todo o sempre.
            Dias, semanas e meses passavam correndo para a Águia e o Castor, pois quando se está feliz, o tempo corre. Foram imensamente felizes, mas algo nela não estava bem, pois ela passou a, a cada manhã, assim que o sol nascia, ir ver os pássaros voando no céu. Olhava para si e via o estado de suas asas: sempre fechadas. Ela era livre e bela, a rainha dos céus, mas, em sua paixão, havia abdicado de seu reino, e só ao ver tantos pássaros livres, voando ao seu redor, foi que seu deu conta.
            Dia após dia, manhã após manhã, ela acordava antes do Castor para ver o nascer do sol, para sentir a suave e fria brisa matutina e ouvir o canto dos pássaros. Uma vez, tão contemplativa estava, que sequer se deu conta dos passos daquele se aproximavam lentamente, observando-a, sentindo o que ela sentia. O Castor depositou suavemente sua pata sobre a asa dela viu o que ela via, com os olhos dela. Uma lágrima brotou de seu olho, pois só então se dera conta do quão distantes eram seus mundos. Eles pertenciam a mundos diferentes. Desejou ter asas, para poder abri-las e voar ao lado de sua amada, livre pelos céus de todo o mundo. Construiu, para ela, um palácio, mas esqueceu de perceber que, provida de sua liberdade, o palácio se tornara uma prisão; vivia num castelo cujas paredes eram feitas de amor, mas que tal amor lhe roubava sua liberdade. Ela havia nascido para ser livre, para pousar no alto das montanhas, ao relento, para reinar sobre as outras aves, e não para viver um amor tão presa ao chão.
            Não externaram nada além daquele claro sentimento que se comunica entre seus olhos de dois seres vivos que se amam. Ela abriu lentamente suas asas e deixou que uma suave lufada de vento a impulsionasse para cima. Enquanto subia lentamente, ela olhou para trás, para baixo, e viu o Castor parado, com os pés presos ao chão.
            Afastaram-se um do outro, e foram, cada um, viver no mundo ao qual pertenciam, mas lá do alto, todos os dias, a Águia olhava para baixo e via o Castor, e o Castor olhava para o céu e seus olhares se encontravam no meio do caminho e sorriam um para o outro, apesar das distâncias que os separavam um do outro.

domingo, 20 de maio de 2012

Tarde demais para um beijo

Após tantos anos, os dois voltam a se encontrar, ele em seu eito de morte. Estava com os olhos fechados, dormindo, com o peito mal subindo e descendo quando respirava. Estava fraco, cansado, e aquela agonia durava, já, anos. O primeiro dia de sua morte havia sido naquela fatídica noite em que os dois se encontraram pela última vez, e agora ela voltava, mas nada podia fazer.
            Ele, mesmo dormindo, mesmo tão fraco, em meio a seu sonho, sentiu aquele cheiro que nunca havia esquecido e abriu lentamente os olhos. Demorou longos minutos até acostumar a visão naquele lusco-fusco de fim de tarde e mais ainda a acreditar em seus olhos. Seu coração, tão debilitado, ameaçou parar de bater em seu peito quando a reconheceu. Ela continuava a mesma, com seus lindos olhos, com seu sorriso, com sua jovialidade. Seus olhos se encontraram. Não falaram uma única palavra a princípio, pois não havia palavra que expressasse a emoção daquele reencontro.
            - Você? – perguntou ele, com sua voz cansada.
            Em resposta, ela apenas sorriu. Seu sorriso era lindo com o desabrochar de uma flor na primeira manhã de uma primavera.
            Ela segurou a mão dele, e ele lembrou da primeira e única vez em que suas mãos tinham se encontrado, de como segurara delicadamente a dela, de como a mão dela foi escapando da dele, escorregando lentamente, e ele sem poder fazer nada para segurá-la, por mais que quisesse.
            Uma lágrima brotou no canto do olho dele, tal como brotara, há tantos anos e com a voz mesmo embargada, ainda conseguiu perguntar a ela:
            - Por que agora, após tanto tempo? Por que você me procurou?
            Ela olhou para o alto, desviando seus olhos dos dele, e seu sorriso desapareceu enquanto pensava no que poderia dizer. No entanto, nada que dissesse poderia fazer o tempo voltar, nada que fizesse poderia redimi-la, mas precisava falar-lhe algo, tentar se desculpar ao menos.
            - Eu não sei o que falar... – iniciou.
            - Não há nada para falar – ele lhe cortou.
            - Mas eu preciso...
            - Nada que você fale vai fazer o tempo voltar atrás – ele usava as últimas forças que tinha para falar. Sua forma de falar era dura, repleta daquela raiva contida ao longo dos anos.
            Ela então se levantou e começou a andar de um lado pro outro pelo quarto, parando, vez por outra, para observar objetos de decoração. Viu uma flor, idêntica a que ele lhe dera tantos anos antes, quando tudo aquilo começara, mas já murcha. Quando ela a tocou, a última pétala que ainda parecia resistir, se soltou, sendo levada pelo vento. Viu outras pequenas coisas que lembravam um passado do qual ela havia esquecido, mas que, naquele momento, ela se lembrou.
            - Por quê? Responda-me apenas por que – pediu ele, cada vez mais fraco. Sua voz soava tão baixa e fraca quanto um sussurro.
            Ela então voltou seus olhos para ele. Era difícil encará-lo novamente. Após tanto tempo era difícil reencontrá-lo, ainda mais naquele lugar, tão povoado de memórias, naquela circunstância. Sentou-se na cadeira ao lado da cama e segurou a mão dele, mas ele a retirou tão logo sentiu seu toque. Ela abaixou os olhos, envergonhada. Agora sabia, sentia, que era ela a culpada dele estar ali, naquele leito. Continuou calada, pois não havia o que dizer.
            Ele, impassível, continuava a olhá-la fixamente, a procurar seu olhar, mas ela fugia, como se tivesse medo de olhar em seus olhos.
            - Por quê? – perguntou ele, com a voz ainda mais frágil. Suas forças o abandonavam lentamente, sua vida escoava por entre seus dedos sem que ele pudesse segurá-la, prolonga-la por mais tempo.
            Ela, sem saber o que fazer, sem ter o que falar, continuou em silêncio, deixando que ele falasse, que desse livre vazão a tudo aquilo que tinha ficado preso ao longo de todos aqueles anos.
            - Tudo o que eu pedi, naquela noite, foi um beijo. Tudo o que eu queria, para me dar uma esperança, para me fazer viver, para me dar um sentido à vida, era um único beijo. Podia até ser um beijo sem paixão. Você poderia até ter me enganado, falando palavras doces ao meu ouvido, dizer que sentia algo que não sentia, mas você não podia, não tinha o direito de ter me negado aquele beijo. Quando você me negou aquele beijo, que desviou o olhar do meu, que retirou sua mão da minha, eu senti meu coração parar. Aquele foi o primeiro dia da minha morte e hoje está sendo meu último dia de vida.
Calou-se subitamente, deixando aquelas palavras ecoando nas paredes da alma dela. Respirava devagar, recolhendo as últimas forças que tinha. Depois continuou:
            - Senti, quando você me negou aquele beijo, minha alma me abandonar, deixando-me tão só, naquele frio, sem qualquer fio de esperança. Depois você ainda sorriu, um sorriso sem qualquer graça, um sorriso forçado. Ali, sem palavras, nos despedimos. Quando você foi embora, que me deu as costas, algo meu se foi – talvez tenha sido um fio de uma última esperança na vida –, algo dentro de mim se despedaçou, e eu não resisti. Aquela decepção, aquela dor súbita foi demais para mim.
            Ela ainda tentou falar, mas ele a impediu com um gesto. Ainda não tinha terminado.
            - Você, hoje, faz ideia do que aquele beijo que você não me deu significava para mim?
            Ela ainda tentou falar, pronunciou algumas palavras imprecisas, mas ele não escutava mais. Ela se levantou, chorando e aproximou seus lábios dos dele e o beijou suave e ternamente, mas ele não correspondeu aquele beijo pelo que tanto havia ansiado. Aquele beijo veio tarde demais, e não podia mais salvá-lo.

domingo, 13 de maio de 2012

Impossível.

Há semanas ele não saia de dentro daquele laboratório. As pessoas estavam preocupadas, já imaginando que algo pudesse ter acontecido. Lembravam-se das palavras dele, de sua empolgação quando dizia estar disposto a mergulhar em sua pesquisa mais audaciosa, capaz de entender o maior de todos os dilemas, de algo que, se ele conseguisse encontrar a resposta, iria mudar, para sempre, a vida de todas as pessoas do mundo, iria mudar os rumos de toda a humanidade. Quando as pessoas lhe perguntavam o que seria aquilo tão importante, ele se calava, deixando no ar um clima de mistério e suspense. Aquela foi sua última aparição, aquelas foram suas últimas palavras no mundo dos vivos antes de se trancar no laboratório levando consigo uma infinidade de livros, que iam desde tratados de filosofia e física quântica à obra completa de Augusto Cury e Bárbara e Allan Pease (!). Vizinhos viam as luzes do laboratório acesas vinte e quatro horas por dia e vez por outras amigos e familiares, que esperavam impacientes do lado de fora ouviam algum riso, exclamação e até choro, mas fora isso, não se tinha qualquer indício de que ele continuava vivo.
            Passados dois meses, veio um primeiro contato dele com o mundo exterior. Passou, por baixo da porta, um bilhete em que pedia livros, livros e mais livros, pois precisava deles para concluir sua deveras importante pesquisa. Ao bilhete vinha anexada uma extensa lista com nome de livros e autores de diversas áreas: literatura, psicologia, arte, ciências exatas e biológicas, medicina e mais uma quantidade enorme e diversificada de títulos de autoajuda. As pessoas, ao verem o bilhete e a lista, alguns correram para as bibliotecas a fim de encontrarem os livros requisitados, enquanto outros foram a uma livraria de shopping para comprar os best-sellers de autoajuda e psicologia. Deixaram caixas e caixas de livros em frente a porta do laboratório, além de algumas sacolas da livraria, mas ele não apareceu para pegá-las. Passaram-se semanas sem que nada acontecesse, com os livros intocados, em suas caixas e sacolas. E quando todos imaginavam que ele tinha se esquecido, eis que se abre a porta, mas o suficiente apenas para que por ela passasse uma mão que não parecia humana, agarrando as caixas (e sacolas) e puxando-as para dentro do laboratório.
            Começaram, então, a esquecer dele e passou-se até a circular rumores e lendas de um cientista maluco que se trancou no laboratório e nunca mais foi visto entre os vivos. E quando perguntavam de que se tratava essa pesquisa, ninguém sabia responder ao certo, o que aumentou ainda mais a lenda-urbana-científica.
            Foi numa noite de tempestade em que raios cortavam o céu que se ouviu o barulho de uma risada sombria e histérica vinda do laboratório. Era um riso convulsivo e macabro, que assustava e divertia a todos o ouviram. Muitos correram para ver do que se tratava e se depararam com a porta ainda trancada. Bateram, bateram e bateram, mas não se ouviu qualquer resposta. Alguns começaram a tentar arromba-la com chutes, mas todas as tentativas foram em vão. Desesperadas, as pessoas começaram a chamar o nome do que se trancara ali há tempos esquecidos, mas o único som que vinha de dentro era o da sua risada, que, cansada, começava a se extinguir pouco a pouco.
            Quando conseguiram, enfim, arrombar a porta do laboratório, encontraram um cenário de caos total, com livros e mais livros espalhados pelo chão, alguns rasgados, outros riscados, outros com as páginas soltas, esvoaçando ao vento. Viram, também, instrumentos de laboratório quebrados, vidros espalhados e substâncias químicas espalhadas em todo o chão. E num canto, caído, o cientista já sem vida. Havia morrido, sim, e deixado um legado, pensaram alguns, e deixara a vida feliz, pois em sua face estava estampado um sorriso.
            Assim que levaram o corpo, começaram a tentar descobrir os frutos daquela longa, exaustiva e difícil pesquisa que lhe consumira a vida. Encontraram inúmeras anotações com cálculos, citações de livros, páginas inteiras de livros rasgadas que comprovavam as suas teorias. Mas por mais que procurassem, não conseguiam entender exatamente do que se tratava a pesquisa e quais seus resultados e respostas. Já cansados, prestes a desistir, ouviram a voz de um alguém que tinha encontrado algo que parecia muito importante, o ponto de partida, os primeiros questionamentos daquela pesquisa / projeto-suicida.
            - Olhem só esse caderno. Foi o primeiro que ele escreveu, onde estão as primeiras perguntas que tanto o inquietavam.
            - Vamos! Abra-o logo e leia o que tem escrito.
            Na primeira página estava escrito, em letras garrafais, “O que se passa na cabeça das mulheres”. Todos os presentes se entreolharam, com a respiração presa. Virou a página e leu os primeiros questionamentos:
            - Por que riem quando estão tristes? Por que choram quando estão alegres? Por que são tão difíceis? Por que nunca conseguem ser claras quanto ao que pensam e sentem? Por que não conseguem ser diretas e objetivas? Por que são tão complicadas? – leu em voz baixa, quase sussurrando, aquele que tinha descoberto o caderno, pois naquelas páginas, escritas com letra tão imprecisa, estavam as respostas capazes de mudar a forma como entendemos o mundo (e as mulheres), algo capaz de mudar, para sempre, a humanidade.
            Ele virava as páginas num frenesi desenfreado, mas nelas só se lia uma série de informações desencontradas, frases desconexas e cálculos infundados. Vez por outra se lia algo que conseguiam entender, como um diário, em que o cientista anotou os avanços e retrocessos de sua pesquisa. Nas palavras escritas notava-se a empolgação, quando dizia estar chegando muito perto, ou a frustração, quando escrevia que tinha se enganado, e que teria que recomeçar tudo do zero.
            Encontraram uma série de cadernos idênticos, com anotações dos andamentos da pesquisa, mas todos igualmente complexos e indecifráveis (como a mente das mulheres!).
            Um alguém encontrou o caderno em que estava escrito, na capa, a palavra “todas as respostas”. Nele a letra do cientista estava ainda mais indecifrável, demonstrando toda a sua pressa e empolgação para apresentar ao mundo os resultados da pesquisa que iria mudar toda a humanidade.
            Leram, letra por letra, palavra por palavra, frase por frase, com a respiração presa, tudo que estava escrito, até que chegaram a última frase.
            - O que torna as mulheres tão complicadas e complexas é...
            - É o que? Fala logo! Leia o que está escrito aí – pediu, implorou um impaciente.
            O que tinha o caderno em mãos olhou para todos que estavam ao seu redor e mostrou a frase inacabada, em que, no lugar das palavras, havia um único risco, um borrão, como se a mão daquele que escrevia tivesse saído de seu controle no exato instante em que estava para escrever as respostas.
            Todos, boquiabertos e frustrados, ficaram em silêncio, sem acreditar em tudo aquilo que tinha se passado. Tinham chegado tão perto. Sentiam como se o grande segredo do universo tivesse chegado perto de ser desvendado, tendo ficado ao alcance de sua mão e escapado num lapso, por conta de uma crise histérica de riso, que matou aquele que desvendou o mistério.
            Começaram, um a um, a sair do laboratório destruído, e ficou só uma pessoa lá dentro, que olhava tudo ao redor e falou consigo mesmo e com o espírito do cientista, que ainda continuava ali, rindo.
            - Desgraçado. Descobriu o que passa na cabeça das mulheres e esse foi o seu fim: morreu de tanto rir e não contou pra ninguém! Agora ninguém mais será capaz de desvendar tal mistério.

domingo, 6 de maio de 2012

As Palavras e Seus Sabores


Cada palavra tem seu sabor. O Amor, por exemplo (ah, o Amor! Sempre Ele, tão presente, mesmo quando ausente em nossas vidas!), tem um sabor doce e suave, que de tão suave sai por nossa boca e sem que percebamos, sorrimos. Amor é doce com um sabor inebriante, que preenche nossa boca e nossa alma do mais doce amor.
            Paixão, ao contrário do amor, tem um sabor mais característico e forte, mais intenso. É doce sim, mas de um doce mais marcante, que gera um vício, que pede sempre mais, que nunca se sacia.
            Infância, para mim, tem sabor de bala de morango, igual àquelas que costumava comprar na mercearia da esquina, mas também pode ter mil e um sabores, todos eles doces.
            Não sei por que, Noite, para mim, sempre teve sabor de papa de chocolate, e Dia de manga. Frio tem gosto de sopa, e Quente de picolé.
            Mas nem toda palavra é doce. Solidão, por exemplo, tem um sabor amargo, que nos faz sentir um peso no peito, um aperto na garganta, tal qual uma lágrima presa. Solidão fica com o sabor preso em nossa boca, que demora a nos abandonar, por mais que bebamos água para afastá-la.
            Talvez, o gosto de Solidão só o abandonamos ao provarmos o sabor que tem a palavra Abraço, que tem um gosto forte, aconchegante, como uma xícara de chocolate quente numa noite de inverno.
            Há, também, palavras com o gosto ruim. Ódio, por exemplo, é uma palavra que tem um gosto amargo, que de tão ruim é capaz de, da boca, passar para todo o nosso corpo, como se só em pronunciá-la, nos tornássemos cheios de ódio, de um amargor que toma toda a nossa alma.
            Inveja tem um gosto que engana. Parece doce, mas de algo doce como um veneno colocado que nos dão para beber. Pouco a pouco, o doce desaparece e fica o do veneno, que contamina nossa alma e não nos deixa mais sentir sabor algum que não o do vício, que não o da inveja.
            Batalha tem sabor de fruta madura, que enfrentou todas as intempéries, lutou, sobreviveu, cresceu e amadureceu. Vitória, então, tem sabor de salada de frutas, saborosa como só ela o é.
            Amizade tem sabor de churrasco e feijoada aos domingos, de reunião na casa de amigos, de conversa jogada fora, de música alta que incomoda os vizinhos.
            Preguiça tem sabor de pão com manteiga, que comemos na segunda-feira pela manhã quando estamos para começar mais uma longa e estafante semana de trabalho.
            Trabalho tem um gosto bom, o qual eu não sei bem definir de que é, mas que às vezes provoca enjoo e que não nos dá vontade de ir trabalhar em alguns dias.
            Há palavras as quais saboreamos de tal forma que esquecemos, mesmo, do mundo que nos cerca, só por estarmos inebriados por seu sabor, mas também há palavras com um gosto amargo, que demora a sair da boca. Há palavras azedas como um limão, amargas  tais quais aqueles remédios que nossas mães nos davam em nossa infância quando estávamos com febre, mas também há as saborosas e apetitosas como uma bela macarronada, as deliciosas e divinas como um belo pedaço de chocolate e suculentas como um sanduíche.

            Palavras não foram criadas para serem jogadas ao vento, para serem usadas como armas mortais, como algumas o são. Palavras devem ser não só usadas, mas sim saboreadas. Experimente, sinta, fale, saboreie-as.